A TRIBO DOS MESTIÇOS
O mestiço é maior do que a soma das suas partes
Eu gosto de dizer que ela é uma "Caçadora de Bodes Siciliana" (uma raça muita rara e da qual existem muito poucos no país). Eu elogio eloqüentemente o seu aspecto (parruda mas pequena: excelente para correr atrás de bodes em planícies cheias de pedregulhos). Eu chego a expressar as minhas esperanças sobre a possibilidade dela participar de exposições caninas (é realmente uma pena que os "Caçadores de bodes" não sejam uma raça reconhecida pelo AKC, ela seria uma séria competidora para o "Melhor da Raça").
A bem da verdade Lucy não precisa desta "honra oficial": para mim ela já é "A Melhor da Raça", uma clássica representante do "Viralatas Americanos".
Claro que a maioria das 140 "raças puras" atualmente reconhecidas pelo AKC são, na verdade, mestiças, desenvolvidas através dos séculos por cruzamentos seletivos entre diferentes e selecionadas raças, a fim de melhorar determinadas características. Este processo foi altamente benéfico para nós, humanos; nós desenvolvemos dúzias de raças excelentes e qualificadas para diferentes tarefas; mas, os cães por sua vez, não foram tão beneficiados. Especialmente neste século, quando mais do que nunca passamos a encarar os cães muito mais como "mascotes" e não mais como realizadores de tarefas (pastoreio, caça, etc.), a criação de cães passou a ser motivada por motivos estéticos. Como resultado: gerações e mais gerações de cães "super-puros"; provocando desordens genéticas; aumentando exageradamente determinadas características físicas. Agradável de se ver? Talvez. E quanto aos benefícios para os cães? Algumas poucas expressões vêem-me à lembrança: displasia dos quadris; deficiências respiratórias; temperamentos descontrolados.
 |
Eu prefiro a maior salada genética: eu escolho o vira-latas. O meu cão pode não ter a linda aparência muscular e brilhante de um "Pointer Alemão de Pelo Curto", mas eu desafio qualquer um encontrar um pointer puro tão calmo e concentrado como ela. Ela não possui a graça e a sedosa pelagem de uma "Collie" mas, por outro lado, ela não é geneticamente inclinada a ter doenças de pele, epilepsia ou deficiências oculares.
Com cruzamentos não selecionados nós podemos conseguir e desenvolver o melhor que existe na espécie, digamos, nos últimos 1000 anos. Também conseguiremos com isso uma certa dose de suspense. Cruzamentos selecionados podem definir e desenvolver o temperamento de uma raça em certos aspectos, mas com um mestiço teremos um eterno quebra-cabeças em mãos. De onde virá os momentos de rara teimosia de Lucy? De onde virá a total aversão dela a "apanhar gravetos e bolas"? De onde virá a total fascinação que ela possui por "Schnauzers miniaturas"?
Beleza é mesmo importante – poucas coisas são mais bonitas que a visão de um puro cão de caça correndo livre numa planíce – mas tão importante quanto a beleza é tudo aquilo que nos traz surpresas, admiração e nos encanta.
Carolyne Knapp é a autora de "Drinking: A Love
Story" e, mais recentemente, do "Pack of Two.
The Intricate Bond Between People and Dogs". |